Segunda-feira, 7 de Junho de 2010

Tudo tem um preço, até a verdade

E outra vez se pede que Cavaco Silva fale ao país, que o Presidente saque dos seus mais profundos conhecimentos de professor de Finanças Públicas e tenha uma intervenção de fundo, faça uma comunicação solene sobre a crise. Querem que o Presidente diga o que pensa sobre o tema e conclua com um sinal de esperança. Ora aí está uma coisa que dificilmente Cavaco Silva conseguirá fazer. Se dissesse de uma assentada tudo o que pensa desta crise, se desvendasse todos os seus receios sobre a economia portuguesa e não só, o risco era não sobrar esperança que se visse.

Um Presidente da República não pode mentir, quando muito pode omitir parte da verdade. Mas não é isso mesmo que têm feito os responsáveis por gerir o ânimo do país, Cavaco incluído? Os que pedem que o Presidente fale ao país devem estar conscientes de que, nesta fase, os portugueses já só ouvem e ligam à verdade e à clareza. Ainda ontem, Cavaco aproveitou um tema leve para enviar aos portugueses mais uma mensagem sobre a crise. Quando lhes pediu para passearem pelo país em vez de fazerem férias no estrangeiro, Cavaco quis dizer muito mais do que se possa pensar. Quis dizer que todos precisamos do consumo de todos, um euro que seja, não para suportar, mas para sobreviver à austeridade que se irá manter por muito e bom tempo. Será que alguém ouviu, que todos perceberam bem as palavras do Presidente? O país precisa de todos os portugueses, até quando eles vão de férias.

Será preferível que Cavaco se sente no sofá de Belém para explicar na televisão, em horário nobre, que o país vive uma situação insustentável, que o risco de Portugal ter de recorrer ao fundo de emergência europeu é bem real, que a entrada do FMI não é um mito urbano, que a agonia vai durar e que 2011 tenderá a ser pior que 2010? Será preferível a solenidade e que o Presidente repita o que outros já disseram? Nesta edição do "Expresso", Daniel Bessa dedica a sua opinião ao tema da verdade. Dá uma longa e propositada volta pela PT e pela guerra pelo controlo brasileiro da Vivo para chegar ao que verdadeiramente lhe interessa: "Nos últimos meses, o financiamento exterior da banca portuguesa tem sido assegurado pelo BCE. Não é sustentável. Não haverá vitória, nem sossego, por maior que seja o sucesso do PEC, enquanto este problema não for também resolvido." O ex-ministro socialista não foi suficientemente claro? A verdade é tão dura que o risco de a contar em detalhe, para leigo entender, é enorme. Talvez valha a pena, mas meçam-se as consequências. Em Portugal o sistema financeiro é o sistema bancário, ou seja, a economia depende da banca. Não é difícil imaginar as consequências da indesejável eventualidade de uma banca estrangulada. Não está claro?

Bem, Cavaco também pode pegar no microfone e dar um valente puxão de orelhas ao governo. Explicar a todos que não somos campeões de crescimento da Europa, que o desemprego aumentou, por mais que o secretário de Estado venha dizer que o Eurostat está enganado. O Presidente pode, de facto, desautorizar ainda mais José Sócrates e deixar bem claro que, no período em que mais precisa, o país tem uma liderança (?) fraca e desesperada. Pode, Cavaco pode fazer isso tudo, mas pesem-se e assumam-se os riscos. Se Cavaco falar, terá de falar claro, para todos entenderem, porque de confusão o país já está bem, obrigada.

publicado por Sílvia de Oliveira às 15:08
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