Quinta-feira, 13 de Maio de 2010

Tenham dó!

As frases brilhantes nascem assim, de raros momentos de iluminação. Depois da "Se eu podia viver sem a Zon? Poder podia, mas não seria a mesma coisa", tivemos "Portugal não é a Grécia" e ontem, que maravilha, "Portugal é o campeão do crescimento". A última tem a autoria de José Sócrates e foi dita após terem sido divulgados os dados do INE sobre o crescimento da economia no primeiro trimestre do ano. Contrariando todas as expectativas, mesmo as do próprio primeiro-ministro, o PIB português cresceu 1% em relação ao último trimestre de 2009. Bom? Sim, melhor crescer do que entrar novamente em recessão técnica, sim, mais que os míseros 0,2% da Alemanha e 0,1% em Espanha. Bom? Não. Comparações destas, como as recorrentemente feitas relativamente à Grécia, não servem para nada a não ser para os políticos de propaganda e para alimentar a cultura da mediocridade. Que se confortem os que contentam em olhar para o pior ou os que gostam do engano de comparar o crescimento do PIB de Portugal com o da Alemanha, o motor da Europa. Nos primeiros três meses do ano, a economia portuguesa cresceu 1%, à custa do consumo privado e das exportações, mas a informação disponibilizada não basta para interpretar com rigor esta evolução. E, o mais importante, este número deve ser lido com toda a prudência, sobretudo com realismo. Não, infelizmente, não somos campeões, os fundamentals da economia são exactamente os mesmos, as agências de rating não vão rever o outlook ou desatar a subir o rating da República, os investidores e especuladores continuam a sentir a fragilidade lusa e a rodear a dívida soberana portuguesa, Bruxelas exigiu novas medidas para reduzir o défice orçamental, quer controlar o orçamento e, não, não são estes 1% que nos pouparão os sacrifícios que aí vêm. As frases brilhantes têm os seus defeitos. Umas cansam de tanto serem repetidas, outras parecem anedota, e tornam-se irrepetíveis. Recuemos no tempo apenas seis meses. No início de Dezembro, a Irlanda anunciou medidas duras: o corte de 10% dos salários dos funcionários públicos, incluindo polícias, enfermeiros e professores, mas também o primeiro-ministro e os outros ministros; a redução das prestações sociais, como o subsídio de desemprego e o abono de família; e a criação de taxas ambientais sobre os combustíveis. Foi o mais arrojado corte de despesa pública levado a cabo na Irlanda. Cerca de um quinto da população irlandesa foi afectada. Mais tarde, em Março deste ano, avançou com a criação de um bad bank com activos problemáticos resultantes da crise do subprime e lançou novas exigências de capital para o sector financeiro. O objectivo é o mesmo de Portugal. Reduzir a despesa pública e o défice orçamental. O plano do primeiro-ministro Brian Cowen é ambicioso: passar de um défice de 11,7%, no final de 2009, para 2,9%, em 2014, com um crescimento económico miserável. Outra frase, esta nada brilhante: Portugal não é a Irlanda. Portugal, nos mesmos seis meses, não fez nada. Em Portugal estuda-se, reúne-se, negoceia-se e decide-se tarde. O governo e o PSD estão presos à política, presos um ao outro, à inevitabilidade da contradição. Sócrates e Passos Coelho garantiram coisas que não puderam cumprir. É a vida, fruto das circunstâncias? Não, a Irlanda sempre soube o que tinha a fazer; só por aqui é que não se quis saber. Agora ajam, mas sejam rápidos que o prazo já passou. Cá estamos todos, sem alternativa, para pagar o despesismo e o desperdício. Só falta o TGV. E no meio disto tudo, como se não bastasse, Pinto Monteiro também quis brilhar. Se acendesse uma velinha seria "pelos jornalistas portugueses, para ver se melhoram". Tenha dó, senhor procurador!, como diria José Sócrates. Trate do que lhe compete e veja se é capaz de ajudar os portugueses a acreditarem na justiça. Tem muito mais com que se preocupar que os jornalistas. Aproveite a visita de Bento XVI a Portugal, reflicta e tente encontrar a verdade.
publicado por Sílvia de Oliveira às 14:59
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