Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

Nuts and bolts

Arrumadas as negociações com a oposição que permitirão viabilizar na generalidade o Orçamento do Estado para 2010, o governo volta a estar como sempre esteve, como deve estar – sozinho. Nas cedências, na tomada de riscos, nas opções e nas decisões.
O envolvimento do PSD e do CDS/PP nas negociações até pode estar recheado do mais genuíno patriotismo, mas a verdade é que nem Manuela Ferreira Leite nem Paulo Portas podiam (queriam?) fazer grande coisa. A realidade da economia portuguesa não está para grandes exigências, quanto mais para intransigências. E, claro está, nenhum dos dois partidos suportaria ser rotulado de responsável pela inexistência de um Orçamento, logo pelo início de uma crise política. Portas foi o primeiro, já disse que se abstém. Manuela Ferreira Leite manteve o silêncio, mas dificilmente arriscará também a morte do partido com um voto contra.
Despachadas então as negociações com a oposição, amanhã o governo português submete-se à mais impiedosa das avaliações a que já esteve sujeito desde que chegou ao poder – a das agências de rating, que teimam em colar Portugal à Grécia. Nem vale a pena repetir a insistente lista de soundbytes e de comparações incorrectas entre os dois países divulgadas nos últimos meses.

A verdade é esta: só José Sócrates e Teixeira dos Santos serão capazes de convencer o mercado de capitais e os investidores de todo o mundo de que Portugal afinal não é a Grécia. E já só faltam umas horas. O Orçamento do Estado será absolutamente decisivo.


Ainda ontem, um analista a trabalhar em Londres dizia que Portugal “viu o que aconteceu à Grécia, o que deve encorajar a tomada de medidas mais austeras no Orçamento”. Mas Sean Maloney da empresa de serviços financeiros japonesa Nomura, citado pelo “Wall Street Journal”, sintetizava: “Qualquer sinal de falta de rigor nas políticas para apresentar um número melhor que o de 2009 será interpretado com suspeição pelos mercados. Os mercados não procuram apenas promessas, procuram também some nuts and bolts.”
É pois com incomplacência e exigência que Teixeira dos Santos contará. As diferenças actuais entre a Grécia e Portugal – no défice orçamental, na dívida pública, ou na vulnerabilidade do sistema financeiro – não são suficientes para convencer o mercado de que a economia portuguesa está noutro patamar. O governo terá não só de apresentar já neste Orçamento uma redução do défice – a descida de um ponto percentual para mais de 7% poderá ser insuficiente –, como também de apresentar um cenário macroeconómico realista. A credibilidade e o currículo de Portugal são o que verdadeiramente nos distingue da Grécia, muito mais do que alguns pontos percentuais a menos. É uma decisão difícil a deste governo, a de cortar na despesa que tanta falta faz para cuidar dos desempregados, relançar a economia e evitar o enfurecimento dos funcionários públicos. Mas não será menos difícil governar um país sobreendividado. As consequências, a começar pela mão pesada das agências de rating, custarão a todos. Não, não é um problema da República.

publicado por Sílvia de Oliveira às 14:38
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