Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

É a Cavaco que dói

Cavaco Silva tem todos os motivos para se sentir no mínimo incomodado com a falta de José Sócrates à cerimónia de tomada de posse dos novos conselheiros de Estado e ao encontro semanal com o Presidente da República marcado para a última quarta-feira. O primeiro-ministro pode ter sofrido inúmeros contra-tempos, ter justificação para os consecutivos atrasos da sua agenda para aquele dia, mas deveria ter evitado tamanha balda. No limite, teria sido preferível saltar as jornadas parlamentares do seu partido em Beja para conseguir chegar a tempo a Belém. É que existe um histórico de convivência conturbada com Cavaco Silva. O que José Sócrates fez soou a uma de duas coisas: provocação ou falta de respeito.

Dito isto, trata-se apenas de mais um episódio revelador do estado das relações entre Cavaco Silva e José Sócrates. Por mais comunicados oficiais que se façam, já são poucos os que acreditam na teoria das intrigas insufladas pelos jornais. Está à vista de todos. E, ao contrário do que diz o esclarecimento divulgado domingo pela Casa Civil da Presidência, o relacionamento do Presidente da República com o primeiro-ministro não é do domínio reservado. O clima tenso entre ambos interessa, e muito, a todos os portugueses. E não é só porque no meio de uma crise gravíssima, com um governo de minoria e um ambiente beligerante no Parlamento, um conflito institucional entre São Bento e Belém seria o cúmulo do desastre. Mais grave é que esta situação de conflito só contribui para fragilizar cada vez mais o Presidente da República, para quem os portugueses sempre olharam como porto de abrigo. Sempre que a vida se complicou, que um governo desiludiu e a desconfiança se instalou, as pessoas encontraram no Presidente da República a garantia de que nem tudo estava perdido. Foi sempre assim, mais com uns do que com outros. E Cavaco Silva ainda estará capaz de cumprir essa função, dar alento às pessoas, tranquilizá-las e até inspirá-las, ser o maior mobilizador de vontades e mostrar uma absoluta independência, provar que está livre de qualquer contaminação? A dúvida existe, nasceu com o penoso caso das alegadas escutas a Belém e não parou de crescer com os episódios de tensão entre Presidente e primeiro- -ministro que se lhe seguiram. Cavaco até pode ter razão, Sócrates até pode ser o principal responsável pela inexistência de cooperação institucional ou estratégica entre os dois órgãos, mas não é o primeiro-ministro o maior prejudicado. É a Cavaco Silva que mais dói o conflito, ou antes, aos portugueses, que pela primeira vez podem deixar de contar com o refúgio presidencial.

Já não é de um fantasma que se fala, mas o que paira só Cavaco pode espantar. Mas para isso não bastam palavras, não lhe chega assegurar repetidamente que é o garante da estabilidade, que é o presidente de todos os portugueses. É preciso mais. Terá de evitar deixar-se cair em tentação e ignorar as provocações do governo, mas, mais importante, terá de actuar e mostrar que, quando tiver de agir, nada se sobreporá ao interesse nacional. O diploma que aprovou o fim do pagamento especial por conta - uma iniciativa do PSD - já estará nas suas mãos e resulta numa quebra de receita fiscal de cerca de 300 milhões de euros (faça Zoom na página 22). Cavaco sabe melhor que ninguém o que isto significa para as contas públicas portuguesas. Que fará, desta vez, o Presidente-professor-de-Finanças-Públicas?

publicado por Sílvia de Oliveira às 14:35
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